Idiossincrasias dum pensar

Rúben Couto

Invariavelmente o nosso destino era estarmos sentados lado a lado, eu à esquerda, ela à direita. Essa era a única forma do meu corpo completar o dela quando ela repousava na minha estrutura: ela inclinava-se num vazio de perfeita silhueta que eu tinha deixado livre somente para o corpo dela.

A minha mão navegava no sentido descendente do braço direito dela enquanto a agarrava em ternura; a minha outra mão agarrava alguma parte do corpo dela em que pudesse manifestar mais alguma da minha emoção.

Os cabelos atiravam-se para cima do meu olfacto e eu não conseguia ver senão fora dali, longe onde a noite era só nossa, lá nos encontrávamos. Às vezes ela reclinava a cabeça para trás e virava o olhar na minha direcção: procurava uma atenção que recebia sempre em excesso. Eu agarrava-a cada vez mais contra mim, e como uma força gravitacional aplicada a todo o seu corpo, trazia-a para mais perto do meu sexo.

Quando ela se juntava a mim, eu sentia a imaginação dela a comunicar com a minha, ambas em segredo num exílio total da nossa consciência onde se despertava o mais profundo dos interesses. Como se tudo tivesse acontecido, acabaríamos por voltar ao estado inicial da nossa compostura e os dois, no mutismo de cada um, não conseguíamos parar de pensar:

 

"Como eu te fazia a ti tudo aquilo que tu imaginaste para mim".